Cinco livros de arquitectura e tanto mais
Há quem diga que a maior diferença entre médicos e arquitectos é que os primeiros enterram os seus erros enquanto que os segundos lhes dão vida. Mas esse é apenas o momento limite em que o erro é irreparável e não será a única diferença entre a profissão que lida com o corpo e a que projecta o espaço em que o corpo vive e se movimenta. Para este escrito sobre livros de arquitectura interessa-nos começar por pensar sobre a forma diferenciada como olhamos e opinamos sobre a medicina e a arquitectura.
Quando nos sentimos mal e para que não nos sintamos mal, procuramos um médico. Na esmagadora maioria dos casos, e ainda que tenha a ver com o nosso corpo, aceitamos a sua opinião sem contestação. A medicina trata do que não vemos, do que temos dificuldade em materializar, do que sentimos que está além da compreensão de quem não estudou medicina.
Um espaço também nos pode provocar doenças, mas é com o médico que normalmente tentamos perceber o que se passa.
Com a arquitectura passa-se o oposto. Na maior parte das vezes, quando temos um problema de arquitectura, tentamos evitar chamar um arquitecto. Todos temos uma opinião ou uma ideia sobre como se poderia melhorar o que está à nossa volta. É algo que podemos, mal ou bem, visualizar e que está dentro da nossa esfera de compreensão e interesse. A capacidade e vontade de todos exerceremos a crítica do espaço que nos circunda, bem como de pensar em alterá-lo, deve ser tida como uma condição inerente à disciplina. Há quem o resuma declarando: a grande arquitectura implica um grande cliente. Mas a relação nem sempre é pacífica.

Um dos pontos mais sensíveis na relação entre o arquitecto e o cidadão não-arquitecto revela-se no léxico de imagens que utilizam. “S, M, L, XL” de Rem Koolhaas e Bruce Mau (1), publicado pela primeira vez em 1995, é um livro importante para a análise da arquitectura contemporânea e da cultura de projecto, quanto mais não seja pela forma como cruza e areja o mundo da imagem de arquitectura. A utilização compulsiva de imagens, a justaposição, a colagem, o recorte ou a própria utilização de texto como imagem trilhou um caminho alternativo às publicações que procuravam mostrar a fotografia mais bela, da realidade mais cor de rosa. Por outro lado, o registo do instantâneo, prenuncia uma ânsia pela exposição do imediato e que hoje em dia se generalizou em novos formatos como nos blogues, no facebook ou nas diferentes redes de partilha de imagens. Mas esta não é a única dimensão pela qual este livro merece ser visto e folheado.
“S, M, L, XL” regista e expõe o trabalho de projecto e investigação de um dos mais relevantes ateliers de arquitectura, cultura e pensamento contemporâneos - o Office for Metropolitan Architecture (OMA) - a partir de um objecto criado pelo seu principal arquitecto, Rem Koolhaas, e por um dos mais relevantes intelectuais da cultura de projecto e design, Bruce Mau. Com as proporções de um tijolo e uma aparência bíblica, este livro-objecto, é dividido em quatro capítulos - Small, Medium, Large, Extra-Large – que correspondem à ordenação os projectos apresentados, por escalas de intervenção. Mas os seus conteúdos rapidamente se afastam da mera reprodução, valorizando-se o processo numa atitude que, mais tarde, Mau sintetizará no terceiro ponto do seu “Manifesto Incompleto para o crescimento”(2), declarando que o processo é mais importante que o resultado. Contam-se histórias, cruzam-se influências, escrevem-se manifestos num produto final em que a riqueza dos conteúdos dispersos prevalece sobre a sua coerência geral.
Com quase mil e quatrocentas páginas importa perceber que este livro não é para ser lido de uma forma sequencial e que a relevância dos seus diferentes momentos não é constante. Destacam-se alguns ensaios como “What Ever Happened to Urbanism” ou “The Berlin Wall as Architecture” e processos de projecto como o da Villa Dall'Ava ou o do concurso para extensão da cidade de Paris, além de La Defénse.
“Projecto e Utopia”(3) de Manfredo Tafuri, ainda que partilhe o tom de manifesto e provocação é, provavelmente, a antítese de “S, M, L, XL”. De uma forma relativamente sequencial, o crítico italiano analisa a arquitectura e o seu papel no seio da sociedade capitalista, ao longo de diferentes momentos históricos. O livro é o produto de um ensaio publicado na revista Contropiano em 1969 com o título “Per una critica dell'ideologia architettonica”. Este artigo é objecto de muita polémica. Os seus detratores declaram-no como uma visão catastrofista do fim da arquitectura. Em “Projecto e Utopia”, Tafuri responde, quatro anos depois, com o que declara ser a reelaboração e ampliação da sua tese. Colocando-se no plano de uma análise marxista da crítica da ideologia procura identificar as funções que o desenvolvimento do capitalismo retirou à arquitectura e, mais concretamente, ao pensamento ideológico que lhe subjaz. Tafuri rejeita a crítica de catastrofismo pois coloca-se como analista do passado e do presente, assumindo-se “a navegar num espaço vazio, no qual tudo pode acontecer mas nada é decisivo”. Independentemente da concordância ou discordância com a maioria das teses de Tafuri, este livro assume uma particular relevância pois coloca e posiciona o crítico e historiador de arquitectura como alguém que assume a sua posição de uma forma radical, sem medo de tomar partido. Tafuri não procura o compromisso ou a mediação. Responde, analisa, qualifica. Exprime, sem rodeios, a sua interpretação dos diferentes momentos históricos que lhe interessam.
Contudo, ao contrário do que possa parecer a partir das questões enunciadas, este livro não é de difícil leitura. Cruzando diversas áreas do pensamento com a ciência política, Tafuri cria uma obra heterodoxa de saberes e interesses, que deve ser lida como uma abordagem extremamente politizada à disciplina.
Mas não será sempre assim?

Josep Maria Montaner e Zaida Muxí, em “Arquitectura y Política - Ensayos para mundos alternativos”(4), dizem-nos que sim. Montaner e Muxí, professores da Escola Tècnica Superior d’Arquitectura de Barcelona, procuram desmontar a ideia muito em voga no final do séc. XX que a arquitectura deve ser apolítica (ou politicamente independente), uma mera declinação da encomenda e/ou do local em que se implanta. Agrupando os diferentes textos em cinco capítulos – Histórias, Mundos, Metrópoles, Vulnerabilidades e Alternativas –, defende-se que existe um valor intersticial à disciplina que passa pela sua relação com a sociedade, valorizando o papel social de arquitectos e urbanistas. Como refere Jordi Borja no Prólogo, diante de cada problema, conflito e interesse urbano não há apenas uma resposta. Essa depende sempre das prioridades que se estabelecem, do que se quer atingir, do que se pode gastar, dos benefícios que se consideram mais importantes – matérias que não são decididas exclusivamente por um governo ou promotor.
O livro não é alheio a abordar temas particularmente difíceis como o sentido ético da profissão, o papel do arquitecto perante as formas de poder ou a luta de classes. Montaner e Muxí identificam como vulnerabilidades das práticas urbanas contemporâneas a falta de memória, o que denominam como neofeudalismo imobiliário e os sectores de cidade informal – normalmente identificados como bairros de barracas - tantas vezes habitados por cidadãos excluídos e isolados das dinâmicas urbanas. Por outro lado analisam-se algumas experiências de vida comunitária que decorrem dos processos de industrialização e apresentam-se alguns casos práticos de políticas de intervenção social inovadoras em cidades como Curitiba, Seattle, Bogotá ou Medellin. No capítulo Alternativas escreve-se sobre as questões de género, cultura crítica, cidade de proximidade, activismos e participação cidadã. Sendo, dos cinco livros apresentados, o mais recente, é particularmente evidente que não é alheio ao momento histórico em que foi sendo escrito e à realidade geográfica de que emana.
As duas últimas escolhas são bem portuguesas.
A primeira revela um dos arquitectos portugueses contemporâneos que melhor escreve sobre arquitectura portuguesa. Alexandre Alves Costa consegue o feito excepcional de acumular uma vida de enorme relevância como arquitecto, cidadão e professor. Não descorando a existência de figuras tutelares como Carlos Ramos, Fernando Távora ou Siza Vieira, Alves Costa faz parte de um triângulo (com Nuno Portas e Domingos Tavares) que, de facto, fez e faz a Escola do Porto - uma das escolas de referência da arquitectura mundial. N' a escola, como carinhosamente é nomeada, Alexandre Alves Costa estrutura o campo das histórias valorizando de uma forma determinante os estudos sobre a identidade e a arquitectura portuguesa.
De Alves Costa entendeu seleccionar-se o livro publicado pela FAUP em 1995, revisto e ampliado em 2007: “Introdução ao Estudo da História da Arquitectura Portuguesa – Outros textos sobre Arquitectura Portuguesa”(5). O livro é composto pelo texto da sua prova de agregação - que lhe dá o título - e sete ensaios. Nos ensaios, Alves Costa discorre sobre os mestres d'a escola – com um texto sobre Ramos e dois sobre Távora, mas sobretudo sobre a sua permanente procura de uma identidade na cultura e na forma de fazer arquitectura em Portugal – do qual “Só Fazemos Bem Torres de Belém” é um excelente exemplo.
Nestes sete ensaios não falta a referência a um dos momentos centrais da história da arquitectura portuguesa do séc. XX, o problema da “casa portuguesa”. Depois de várias tentativas de criação de um discurso único na arquitectura portuguesa, em 1948 no primeiro Congresso dos Arquitectos, o regime procura impor um estilo associado ao que entendia ser a “casa portuguesa”. Nesse Congresso dá-se uma histórica batalha entre quem defende a imposição de uma Arquitectura de Regime e os que questionam as características dessa casa dita portuguesa. Os segundos não só saíram vencedores do Congresso como também foram conquistando posições de relevância no Sindicato Nacional dos Arquitectos de onde, entre 1955 e 1960, foi lançado o Inquérito à Arquitectura Regional Portuguesa.
Do Norte ao Sul, do litoral ao interior, divididos em seis zonas geográficas, registaram-se as diferentes características, formas de fazer e de construir em Portugal Continental. Uma imensa diversidade para tão curto espaço de território, mas que definitivamente não era compaginável com a ideia de estilo único que o Estado Novo pretendia impor. É deste Inquérito que sai um dos mais eficazes documentos sobre a arquitectura portuguesa e o território da época: “Arquitectura Popular em Portugal”(6).
Este livro, que já contou com quatro edições - a última das quais em 2004 publicada pela Ordem dos Arquitectos em dois volumes- é um magnífico tributo ao território do nosso país de meados do séc. XX. Esse território que progressivamente temos vindo a destruir e canibalizar. Para uma significativa parte dos arquitectos portugueses, a “Arquitectura Popular em Portugal” é vista como uma manual de diferentes formas de fazer e construir território dentro do nosso país. Num momento em que se assiste a uma nova tentativa de imposição de um estilo de Estado, afunilando e circunscrevendo o que se entende denominar como “arquitectura portuguesa” - manifestado nas representações de arquitectos portugueses a certames internacionais, nas publicações e exposições nacionais ou na ordem profissional - importa reler e reaprender o que nos deu o Inquérito.
Estes são os cinco livros de arquitectura que escolhi destacar. Talvez não sejam as escolhas mais aconselháveis para uma aprendizagem canónica da disciplina, nem estejam suficientemente distantes da realidade e do tempo em que vivemos. Numa interpretação muito pessoal que gosto de praticar sempre que convocado a falar ou escrever sobre arquitectura, aproveitei para escrever sobre as nossas vidas.
Ao contrário da medicina, a arquitectura está presente em praticamente todos as dimensões da nossa vida. Por isso, é decisiva no projectar de soluções de futuro para este país.
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(1) Koolhaas, Rem, and Bruce Mau. S, M, L, XL. Koln, Germany: Taschen, 1997 (1995).
(2) Mau, Bruce. “Incomplete Manifesto for Growth.” 1998. http://www.brucemaudesign.com/4817/112450/work/incomplete-manifesto-for-growth.
“3. Process is more important than outcome.
When the outcome drives the process we will only ever go to where we’ve already been. If process drives outcome we may not know where we’re going, but we will know we want to be there.”
(3) Tafuri, Manfredo. Projecto e Utopia. Lisboa (Roma): Editorial Presença, 1985 (1973).
(4) Montaner, Josep Maria, and Zaida Muxí. Arquitectura y Política - Ensayos para mundos alternativos. Barcelona: Editorial Gustavo Gili, 2011.
(5) Alves Costa, Alexandre. Introdução Ao Estudo Da História Da Arquitectura Portuguesa – Outros Textos Sobre Arquitectura Portuguesa. Porto: FAUP Publicações, 2007 (1995).
(6) AAVV. Arquitectura Popular Em Portugal. Vol. I e II. 4ª Ed. Lisboa: Centro Editor Livreiro da Ordem dos Arquitectos, 2004 (1961).




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